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“Roda Livre”: promoção da igualdade de gênero, com base na Pedagogia da Cooperação

Irene Silva e Luciana Vidal

“Ninguém se liberta sozinho. Ninguém liberta ninguém. Nos libertamos em comunhão.” (Paulo Freire)

 

No final de 2016, inspiradas pelos movimentos feministas nos quais militamos e após nos reencontrarmos em uma manifestação contra a violência de gênero, sonhamos juntas a “Roda Livre”. Nosso objetivo é promover espaços seguros, de diálogo e troca, onde os participantes têm a oportunidade de desconstruir estereótipos de gênero que os limitam, refletir de forma profunda sobre como construir uma sociedade livre de opressões e medos para mulheres e homens, e se fortalecer como promotores ativos da igualdade entre gêneros, nas suas redes e comunidades.

Desconstruir opressões de gênero é uma tarefa muito ambiciosa em um país com uma cultura fundada no patriarcalismo como o Brasil. Como o objetivo é ambicioso, se trata de uma radical transformação cultural. Assim, acreditamos que é preciso acolher quem entre na Roda não só com a razão, mas de corpo e alma, para que se sinta à vontade para se expor, se questionar e se abrir a rever seus conceitos. Nós não acreditamos em processos de formação/educação em formato de palestras, cheias de conteúdo. Nós acreditamos no poder do encontro, na aprendizagem baseada nas experiências pessoais do grupo e em vivências, na expressão por diversas linguagens como música, poesia e teatro. Por isso, todos os nossos encontros são baseados em Dinâmicas de Grupo Colaborativas e Exercícios de Diálogo.

A Pedagogia da Cooperação, que conhecemos juntas na pós-graduação realizada em 2014, é uma das bases mais importantes da nossa Metodologia. Além de ferramentas e metodologias, como as Danças Circulares e outras dinâmicas, ela nos ofereceu um alicerce para o design das Rodas. Cada encontro é único, de acordo com o grupo e com o tema em foco. Mas elas compartilham algumas etapas essenciais:

1) Acolhimento – Na nossa experiência, vimos como é importante, primeiramente, criar um ambiente de confiança, onde os participantes se sintam descontraídos, respeitados na sua individualidade, ouvidos. Assim, mesmo em Rodas de pouca duração, valorizamos muito os exercícios de Com-Tato, o momento de construir coletivamente os acordos do grupo e de ouvir e atender à necessidade de cada um, além das dinâmicas que fortalecem as alianças entre eles. Acreditamos que o sentimento de não estar sozinho e ser considerado parte relevante da Roda é, talvez, uma das maiores conquistas desses encontros, para além de qualquer conteúdo assimilado.

 

2) Desenvolvimento da reflexão do individual para o coletivo – No desenho de cada “Roda Livre”, também valorizamos os momentos de reflexão individual, para que cada participante tenha tempo de elaborar seus pensamentos e sentimentos. Muitas vezes utilizamos materiais de apoio para estimular essa reflexão (como vídeos, contos, poemas, pesquisas). Após esse momento, promovemos dinâmicas de diálogo em duplas e grupos menores e seguimos para a criação coletiva de ideias e manifestos (que podem ser escritos ou apresentados por outras formas criativas). Buscamos sempre partir do que foi sentido por cada um, da experiência de vida pessoal e do que faz parte da sua realidade.

 

3) Sonho que vira ação – Ao final de cada encontro, queremos chegar no “mínimo passo elegante”, naquilo que cada um pode fazer de concreto no seu dia a dia, para esse mundo que sonhamos. A motivação vem pelo sonho, mas a ideia é sair inspirado para agir imediatamente, pois só teorias não mudam a realidade e nem motivam ninguém. Alguns exemplos de pequenos passos: Uma menina de 11 anos, que participava de uma Roda com sua avó, em Parelheiros, decidiu que iria falar para os seus primos meninos também lavarem louça. Uma jovem, do Centro de São Paulo, disse que não iria mais falar de outras meninas de forma pejorativa. Uma educadora de Juruti, no Pará, afirmou que iria trazer mais heroínas mulheres nas suas referências e promover momentos de convivência entre meninos e meninas, ao invés de separá-los na escola. O Coletivo Encrespados, do Jardim Ângela, programou uma série de rodas sobre esse tema. Cada passo é do tamanho da perna de cada um e está inserido na sua realidade.

 

4) Celebração – Outro elemento da Pedagogia da Cooperação sempre presente nas nossas rodas é a Celebração. Esse é um cuidado delicado, quando tratamos de igualdade de gênero, pois é um tema duro e pode suscitar lembranças e fatos dolorosos. Mas desenhamos a experiência para que ela flua para uma finalização propositiva e motivadora. Compartilhamos e acolhemos as dores, mas cuidando para que o sentimento final seja de alegria, de coragem e empoderamento, e não de impotência ou abatimento. Diversão não é o oposto de seriedade, e com a Pedagogia da Cooperação, as duas são aliadas.

 

A Roda Livre tem muito a celebrar: mais de 500 pessoas já participaram dos mais de 30 encontros que promovemos em comunidades, escolas públicas, coletivos, seminários e empresas, com uma rede cada vez mais forte de parceiros. Recebemos depoimentos poderosos, relatando que os encontros provocam, inspiram e fortalecem os participantes. Para nós, tem sido uma jornada extremamente recompensadora, de sair da “revolta impotente” para a “ação transformadora”. Seguimos acreditando na Cooperação e rodando em muitas rodas com gente que sonha junto e também quer construir um mundo livre para mulheres e homens.

Quer entrar na Roda, acesse: www.facebook.com/rodalivrebr ou www.entrenarodalivre.com.br.

*Irene Silva e Luciana Vidal são as criadoras da “Roda Livre”. Além dessa iniciativa, atuam como coordenadoras de projetos sociais, educadoras e facilitadoras de processos coletivos de desenvolvimento. Elas se conheceram quando cursaram a pós-graduação em “Pedagogia da Cooperação e Metodologias Colaborativas”, Turma 2 – SP, em 2014.